Arquivo | Caloirices RSS feed for this section

Exames, praxes e afins

31 Jan

Bom dia, mundo. Eu sei, não tenho como me desculpar por ter passado tantos dias sem dar vida ao blog e, bem, estou aqui para me redimir.

Enquanto estive desaparecida do mundo cibernaútico (eu sei que o Facebook e o Tumblr são cibernaúticos), vários temas tiveram, e estão, na “cadeira quente”  (deve haver uma melhor tradução do que esta de “hot sit”, mas o meu cérebro não chega lá).

Primeiro, uma atualização.

Penso que a última vez que vos falei, contei-vos acerca da minha primeira frequência em conjunto com primeira multa (um dia feliz).

Janeiro, para a Universidade de Medicina de Coimbra, é o mês dos exames e, visto todas as cadeiras terem o exame final obrigatório, tenho a dizer que foi um mês de loucos. Na universidade, não querem saber como o fazemos, quanto temos e, honestamente, nem se passamos ou não.

O primeiro exame foi de Anatomia e, nem outra coisa era esperada, era composto por duas avaliações orais (uma com o professor de Anatomia geral e outra com um professor de Anatomia torácica). Nunca estive tão nervosa na vida: num minuto pensava “Eu sei isto, vai correr bem.”, mas no minuto a seguir “Oh bolas, sinto o conhecimento a esvair-se a cada respiração.”.  Mas ele não se esvaiu, pelo menos não completamente.

Os outros exames foram… estranhos. Havia aqueles a que estudava e sabia as coisas e havia aqueles a que, enquanto fazia o exame só pensava :”Mãe de Deus, vou chumbar. VOU CHUMBAR!!”. Mas depois recebia o e-mail e lá vinha uma nota positiva. Por vezes, mais alta do que às disciplinas para que tinha estudado e estava confiante. Inexplicável. Já nos tinham avisado de que havia várias disciplinas às quais passaríamos sem sabermos nada, vá, pouco.

E, tendo acabado os exames, estou de férias. Uma semana, mas já estava a precisar.

Agora, aos temas escaldantes (será esta uma melhor tradução?).

Primeiro vamos lá falar do tema favorito dos jornais, programas da manhã, revistas, blogs e coisas – O acidente do Meco. Chamo-lhe acidente, porque assim acredito que tenha sido, a menos que o martirizado sobrevivente tenha colocado uma arma à cabeça dos outros e os tenha obrigado a se atirarem ao mar.

Eu não sei o que aconteceu e como tal não gosto de inventar histórias. Mas todo o mundo gosta. Tudo o que se sabe é que sete amigos (colegas, whatever) foram passear à beira mar e seis deles foram levados pelo mar. Seis não, sete. Um deles conseguiu sair, conseguiu telefonar e pedir ajuda.

Agora, se lá foram em praxe, porque lhes apetecia passear, porque estavam bêbados, drogados ou qualquer coisa, não sei. E é por isso que não emito julgamentos. Se, deveras, foram em praxe, e se faziam parte do conselho de praxe (ou lá como se chama) sabiam que, em situação de perigo,  poderiam-se recusar a fazer o que quer que fosse. Não acho mas é justo que, o rapaz, homem, que sobreviveu tenha de viver com o pensamento de que seria mais fácil ter ido atrás dos outros e ter lá ficado, no fundo do mar, do que sobreviver para contar a história.

Não gosto de observar a manipulação que é feita pela comunicação social. Odeio. Era suposto haver IMPARCIALIDADE. Mas não há. Consegue-se moldar o pensamento da população mostrando “provas” irrelevantes e testemunhos imparciais.

E tendo dito isto, acho que deixo o resto para outro artigo.

@jofivelo

LaPrimieraPraxe

1 Dez

O dia que o caloiro mais teme é este: o dia da primeira praxe.

O nosso corpo não está fisicamente preparado para esta primeira semana: as pernas falham, os joelhos e os nós das mãos adotam uma tonalidade ligeiramente mais escura, as gargantas começam a arranhar e as pequenas noites são dormidas muito angelicamente.

Somos postos neste mundo novo, diferente, com uns indivíduos cuja vocação está mais virada para general de tropa do que para estudante de medicina, que nos mandam olhar para o chão (só para o chão), que nos ensinam a andar de quatro (algo de fácil aprendizagem), de três, na posição mamute, canções (muitas canções) com mais palavrões do que vírgulas e que nos dizem que este vai ser o melhor ano das nossas vidas. E nós engolimos, não acreditamos, mas engolimos.

Mas, quase que magicamente, algo acontece. Somos obrigados a conhecer os nossos colegas caloiros, para não estarmos sozinhos. E foi aí que uma pequena luz se acendeu e percebi a lógica de tudo isto: a praxe serve para que os caloiros se juntem, logo desde o início, contra uma frente comum: os doutores. E assim, vamo-nos tornando um só, porque partimos todos do zero, do nível besta, e vamos crescendo e tornando-nos em algo juntos (doutores, a longo prazo), ao mesmo ritmo.

É uma lógica invulgar, talvez, mas bastante simples – a união é a força – e, graças a este mantra, aguentamos o primeiro dia, o segundo já nos parece mais fácil e, no terceiro, já nos roemos todos para não desatar às gargalhadas com as piadas do tripeiro que segura a colher.

Eles começam a ser os nossos orientadores e tábuas de salvação, mantendo-nos à tona no meio da enxurrada de cadeiras, protocolos e saudades que ameaça a nossa saúde mental. A sua importância é tal que, quando chega à altura de escolher os padrinhos, a tarefa torna-se altamente complicada. Gostamos de vários doutores e eleger aquele que queremos que seja o nosso padrinho pode ser uma difícil demanda.

E é assim, magicamente, que, em duas semanas, deixamos de odiar os amorosos doutores, para passarmos a necessitar deles para sobreviver. É por isto que a praxe rules!

@jofivelo

A primeira frequência

4 Nov

Ainda tenho muitas aventuras académicas para contar, que aconteceram antes deste dia, mas preciso de partilhar convosco isto.

Primeira frequência. Tudo bem. É de anatomia. Desafiante, mas tudo bem.

A Joana estuda que nem uma mula para encarreirar tantos nomes de porcarias que, provavelmente, a maior parte das pessoas nem tem, decora-as, faz desenhos maricas sobre elas e depois chega o dia da frequência. PÂNICO.

Chego a horas, até com um tempo de adianto, vou para ao pé das minhas colegas – medo geral – e esperamos, atenção, uma hora pelo professorzinho. Entramos sentamo-nos no auditório e temos vinte minutos para resolver as perguntas. Bora lá!

Blá.. Blá.. Blá… Verdadeira? Não é falsa. Espera aí! O que é a articulação uncovertebral? E o cremaster? Que raio!

O pior teste de sempre.

Mas reparem: não só o teste me correu mal, como, quando chego ao meu rico carrinho, vejo o quê? Uma bela de uma multa.

#fuck

@jofivelo

Tirar a gaita ao doutor

26 Out

O primeiro impacto que temos ao entrar na universidade é pânico. Depois sentimos um entusiasmo ligeiro, uma certa alegria, mas voltamos ao pânico.

Ora, esse estado começa logo na matrícula e agrava-se bastante com a presença de “doutores” ao longo das fila que esperam como “abutres” pelas suas presas – os caloiros.

A sua abordagem é bastante simpática, não me levem a mal, mas o estado de espírito do caloiro amplifica todas as ironias e indiretas vindas do chamado, Doutor. Tudo o que eles dizem nos parece sagrado e obrigatório e todos os nervos sensitivos (epá, sabem, agora estou em Medicina) estão bastante alerta.

Depois do meu demorado registo, quer dizer, na parte de conhecer o núcleo de estudantes do registo, ia ouvindo um grupo de caloiros de medicina a serem praxados e eu, esperta, ia engendrando um complexo plano de fuga. Bem… falhou.

Assim que me levantei da cadeira, uma amorosa doutora (reparem na ironia) veio ter comigo e decidiu praxar-me individualmente. “Qual é a sua graça?” “Não sei” Tremeliques “Não sabe como é que se chama caloira?” “Ah! Joana” “E a sua gracinha?” “Lourenço?…” “Hum… Olhe, quero apresentar-lhe este dr. É o dr. Grilo. E eu quero que você lhe faça uma declaração de amor, com as palavras alface, linha malva, pinóquio. Vá, desenmerde-se, caloira! “Ah.. dr.. dr.. grilo… Eu gosto.. Ah… pânico Você… ah…” “Oh esqueça. Tire a gaita a este doutor.” Os meus olhos, por esta altura percorriam todo o corpo do tal doutor – nada mal parecido, por sinal – sem que nada fizesse “plim” na minha mente. Então ele disse-me ao ouvido: “É uma peça de roupa.”

E foi aí que aprendi como é que se tira a gaita a um doutor.

@jofivelo

Quatro semanas a andar de quatro

13 Out

Faz hoje (bem, daqui a três dias) um mês que sou uma caloira. (Desculpem lá ter demorado tento tempo!)

Era por volta de meia noite quando ganhei a coragem de ir ver ao mail, se já tinha a resposta à minha candidatura ao ensino superior. E lá estava ela, toda pomposa e provocante. O assunto era: Candidatura ao Ensino Superior 2013, na primeira linha li – Cara Joana Lourenço… Por esta altura a coragem fugiu e não consegui baixar o olhar, o meu coração estava bastante acelerado e pela minha mente passava mil e um pensamento. Sustive a respiração e arrastei o olhar até à linha seguinte:

“Resultado: colocado

Instituição: Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra”

O quê? Devo estar a ler mal!

“Curso: Mestrado Integrado de Medicina”

Não! Oh Meu Deus! Eu entrei! Eu entrei!!!!! Os meus olhos encheram-se de lágrimas (uma reação verdadeiramente estranha da minha parte) e não conseguia parar de ler o e-mail de cima a baixo para ter a certeza do que estava. Tinha entrado em Medicina. FMUC_Banner

Corri ao andar de baixo acordei os meus avós: “Entrei em Medicina (Buáa!…)” “A sério, filha? Ai que bom!” “O quê? O que é que ela disse?” “Que entrou em Medicina, homem!”. Telefonei à minha prima: “Vou para Medicina, Bruna.” “Vais? Conseguiste?” “Hum, hum” “Estás a chorar?” “Estou.”

Fui a dormir sem saber como é que aquilo tinha acontecido.

Próximo capítulo: tirar a gaita ao doutor.

@jofivelo

%d bloggers like this: